A frouxidão no amor é uma ofensa,
Ofensa que se eleva a grau supremo;
Paixão requer paixão; fervor e extremo
Com extremo e fervor se recompensa.
Vê qual sou, vê qual és, vê que dif’rença!
Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;
Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;
Em sombras a razão se me condensa.
Tu só tens gratidão, só tens brandura,
E antes que um coração pouco amoroso,
Quisera ver-te uma alma ingrata e dura,
Talvez me enfadaria aspecto iroso,
Mas de teu peito a lânguida ternura
Tem-me cativo, e não me faz ditoso.
(Bocage)
Motivo
E agora que sou poeta,
escrevo por toda parte,
nos muros de minha mente,
nas folhas do mamoeiro
e nas bolhas de sabão.
A lua redonda e branca
está toda rabiscada
e as areias da praia
repassam minhas palavras
às ondas que leem o chão.
Por isso que sou poeta.
Pra deixar por esse rio
a minha alma perdida
toda uma esteira de sonho
e o toque da minha mão.
(Lilia Silvestre Chaves)
Ver-o-Peso
Lembro o recorte cinza do mercado em ferro.
No verde céu que se desmancha em água.
Ouço o chão líquido que vacila, a náusea.
Dos pregões, a música; deste peso, o berro.
…………………………………………….
Mas há cheiro de vida revolvendo
No lixo destes lares flutuantes.
Há corpos feitos de sol e chuva e tempo,
Na lama de esperança apodrecendo.
Velas rasgadas se oferecem, murchas,
Ao resto de maré, ao léu do vento.
Há um gosto de força amargurada
Nesta lida molhada de miséria,
Da úmida cidade que se arrasta
Ao rumo deste rio, que vai morrendo.
(Lilia Silvestre Chaves)
Conchas
É a luz que se faz negra e pesada.
O tempo é longínquo e furta-cor como as
conchas ocas esquecidas do mar.
Fecho as cortinas de pálpebras
e sigo, carregada de janeiro.
Persigo asas e semeio adeuses.
Diz-me, onde moram as almas das conchas?
(Lilia Silvestre Chaves)